domingo, março 1, 2026
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Medicina tem explosão de vagas não preenchidas na 1ª chamada após mudanças no Sisu

O número de vagas nos cursos de medicina que não resultaram em matrícula na chamada regular do Sisu 2026 explodiu nas universidades federais em comparação com os últimos anos. Em graduações historicamente entre as mais concorridas do país, uma parcela relevante das vagas já migrou para a lista de espera.

É o que ocorreu na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que tem uma das graduações em medicina mais disputadas no sistema de seleção federal e registrou a quarta maior nota de corte da área nesta edição. No campus da capital, 97 das 200 vagas foram encaminhadas à lista de espera em 2026. Em 2025, foram 47; em 2024, 57. Em Macaé, 39 das 60 vagas não resultaram em matrícula na 1ª chamada. No ano passado, foram 15; em 2024, 18.

As instituições começaram a divulgar as listas de espera em 11 de fevereiro. Ainda não há dados consolidados que expliquem o movimento. Especialistas ouvidos pela Folha apontam como principal hipótese a mudança no regulamento do sistema, que passou a permitir o uso da melhor nota entre as três últimas edições do Enem.

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Já era comum que candidatos utilizassem o desempenho no Enem para se inscrever em cursos sem intenção real de matrícula. Mas agora, segundo professores, a possibilidade de usar edições anteriores do exame fez com que estudantes com médias altas passassem a disputar vagas apenas para testar as chances de aprovação, sem compromisso de mudança de cidade ou de efetivar a matrícula.

Para o consultor em ensino superior João Vianney, sócio da Hoper Educação, a mudança no Sisu não foi acompanhada de mecanismos que restringissem a participação de estudantes já matriculados em universidades públicas. “Sem a exigência de compromisso imediato, alguns participantes simplesmente aplicaram a inscrição do Sisu como se fosse um game”, afirma.

Segundo a lista da chamada regular da UFRJ, 57 candidatos no Rio e 17 em Macaé utilizaram nota do Enem de anos anteriores. A Pró-Reitoria de Graduação da UFRJ informou que a avaliação consolidada será feita após o encerramento de todas as convocações e que pretende mapear o ano da nota usada pelos candidatos para entender o comportamento de ocupação das vagas.

Na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que divulgou a lista de espera em 19 de fevereiro, o curso de medicina teve 133 vagas encaminhadas à lista de espera na primeira chamada de 2026. Em 2025, foram 95; em 2024, 80. O curso oferece 320 vagas por ano.

No processo da instituição mineira, 52 aprovados na chamada regular recorreram a notas de edições anteriores do Enem. A instituição afirmou que é preciso aguardar a conclusão das etapas de registro e matrícula para avaliar os impactos da nova regra. Disse ainda que o Sisu é um processo dinâmico, de alcance nacional, e que mudanças recentes exigem cautela antes de estabelecer relação direta entre causa e efeito.

O aumento não se restringiu à medicina. Na UFRJ, o número de vagas encaminhadas à lista de espera cresceu na maioria dos cursos. E o maior crescimento ocorreu em direito no período integral, que oferece 360 vagas por ano e viu o total na lista de espera passar de 181 para 235, um acréscimo de 54 cadeiras.

Procurado, o MEC (Ministério da Educação) informou que o ciclo de matrículas ainda está em andamento e que análises sobre ocupação de vagas dependem da consolidação nacional dos dados. A pasta disse que acompanha os indicadores do processo seletivo e que fará avaliações técnicas ao final das convocações, incluindo estudos sobre notas de corte, padrões de escolha e dinâmica de classificação.

Sobre a possibilidade de distorções, o ministério afirmou que o modelo do Sisu se baseia exclusivamente nas notas do Enem e nas regras previstas em edital. Segundo a pasta, as oscilações nas notas de corte refletem a dinâmica concorrencial do sistema e as escolhas feitas pelos próprios candidatos, algo esperado em um processo que atualiza as posições diariamente.

Além do efeito das mudanças no Sisu, Vianney afirma que outros fatores estruturais podem ter contribuído para o aumento das vagas ociosas. O custo de vida nas grandes capitais, a ampliação da oferta no ensino privado e a possibilidade de manter matrícula em outra instituição enquanto se aguarda a reclassificação também influenciam a decisão dos candidatos.

Segundo o pesquisador Gustavo Bruno de Paula, o Sisu já vinha sendo associado, desde sua criação, ao aumento da evasão e das vagas ociosas, por incentivar “escolhas estratégicas”. O sistema permite acompanhar as notas de corte durante o período de inscrição, o que pode levar candidatos a optar por cursos com maior chance de aprovação, mesmo que não sejam sua primeira preferência.

Para ele, a nova regra pode ter reforçado esse comportamento, reforçando que isso pode ser uma consequência não antecipada pelo MEC. “Ao possibilitar o uso das notas anteriores, a nova regulamentação pode ter incentivado ainda mais escolhas pouco refletidas, como o próprio Sisu incentiva”, afirma o professor de sociologia da USP Ribeirão Preto.

Dentro das escolas e cursinhos, o cenário tem sido acompanhado com preocupação por educadores. No colégio mineiro Bernoulli, a alta rotação de vagas em medicina na UFMG é vista como um fenômeno atípico. Segundo Vinícius Figueiredo, coordenador pedagógico do pré-vestibular, o comportamento foge completamente do padrão histórico. Para ele, o movimento não indica desinteresse, mas é um efeito colateral da nova regra, que permite que candidatos já aprovados voltem a concorrer com suas melhores notas.

No Rio, o diretor pedagógico da Rede Alfa CEM Bilíngue, que teve a melhor média no exame no estado, de acordo com levantamento da Folha, faz uma avaliação semelhante. Rafael Galvão afirma que a mudança pode ter inflado as notas de corte e levado parte dos candidatos a desistir da UFRJ antes mesmo da lista de espera. “Muitos alunos acreditaram que estavam longe da nota de corte e optaram por outras universidades”, diz.

Para Eduardo Calbucci, diretor pedagógico do Curso Anglo, o momento é de transição. “Ainda é cedo para tirar conclusões. A regra foi aplicada de forma repentina, sem que os alunos soubessem que as notas de três anos seriam consideradas. O ideal seria uma transição gradual, para que as turmas futuras se preparassem com previsibilidade”, afirma.

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