sexta-feira, setembro 25, 2026
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Noivo chama 911 para ajudar brasileira após aborto espontâneo, mas ela acaba presa pelo ICE

Iara do Carmo Santana, de 29 anos, sofreu um aborto espontâneo em agosto e, no início de setembro, teve uma crise emocional. O noivo acionou o 911 pedindo uma ambulância, mas ela acabou detida sob acusação de agressão doméstica e entregue ao serviço de imigração. Após cerca de quatro dias em um centro de detenção alvo de denúncias sobre condições precárias, foi liberada pela Justiça.

Uma brasileira de 29 anos foi detida pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) após sofrer um aborto espontâneo e passar por uma crise de saúde mental relacionada à perda gestacional. O caso ocorreu no início de setembro, na cidade de Malden, em Massachusetts, e foi revelado pelo jornal The Boston Globe.

Iara do Carmo Santana, natural do Espírito Santo, perdeu a gestação de aproximadamente seis semanas em agosto, quando descobriu que o feto não apresentava mais batimentos cardíacos. Ela precisou passar por um procedimento para a evacuação do útero e deveria continuar o tratamento com medicamentos.

No dia 3 de setembro, o noivo, o também brasileiro Gabriel Lemos, de 31 anos, ligou para o serviço de emergência (911) ao perceber que Iara passava por um episódio de desestabilização emocional. “Eu moro neste país há 11 anos e já tinha chamado a emergência outras vezes”, afirmou Gabriel à Folha de S.Paulo. Ele disse esperar que uma ambulância fosse enviada para ajudar a acalmar a companheira.

Detenção e entrega ao ICE

Em vez de ser encaminhada para atendimento médico, Iara acabou presa sob acusação de agredir o companheiro. O casal nega que a agressão tenha ocorrido. O advogado da brasileira, Todd Pomerleau, também contesta que o episódio justificasse a prisão. Segundo ele, Gabriel havia acionado o serviço de emergência com o objetivo de conseguir atendimento para ela.

Iara ficou algumas horas sob custódia da polícia de Malden antes de ser entregue ao ICE, órgão responsável por questões de imigração nos Estados Unidos. “Eles estavam lá dentro da delegacia para me prender”, contou Iara à Folha. Segundo o Boston Globe, agentes do ICE aguardavam a liberação da brasileira após a custódia policial.

Ela foi levada a um centro de detenção de imigrantes em Burlington, onde permaneceu por cerca de quatro dias. Iara afirma que não recebeu os medicamentos que deveria usar durante a recuperação do procedimento realizado após a perda gestacional. Ela também relata ter desenvolvido uma infecção, enfrentado dificuldades para se movimentar e dormido no chão enquanto esteve detida.

Denúncias contra o centro de detenção

O centro de detenção de Burlington é alvo de denúncias de imigrantes que passaram pelo local, seus advogados e grupos de defesa de direitos humanos. Os relatos incluem falta de colchões para os detentos dormirem, levando alguns a dormir no chão de concreto, falta de produtos de higiene íntima e dificuldades de acesso a chuveiros e atendimento médico.

O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS), responsável pelo ICE, contestou as acusações e afirmou que as alegações sobre condições inadequadas na unidade são falsas.

Libertação e situação migratória

Em 8 de setembro, o juiz federal Leo T. Sorokin determinou a libertação de Iara e proibiu que ela fosse transferida para outro estado ou deportada dos Estados Unidos. Durante a audiência, o magistrado afirmou que, ao manter alguém sob custódia, as autoridades têm obrigação de fornecer atendimento médico e classificou a situação como grave.

Após deixar a detenção, a brasileira passou a responder em liberdade pelas acusações de agressão contra o noivo e aguarda uma definição sobre sua situação migratória no país.

Iara entrou nos Estados Unidos de forma irregular em 2021, pela fronteira com o México. Posteriormente, recebeu autorização de trabalho e tem uma audiência relacionada ao pedido de asilo marcada para 2029. Ela vive com o noivo e o filho de seis anos. Gabriel possui green card, autorização de residência permanente, desde 2024.

Contexto migratório

O caso ocorre em meio ao endurecimento da política de imigração dos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump. Levantamentos recentes apontam aumento das detenções realizadas pelo ICE, inclusive de pessoas sem antecedentes criminais.

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