Lula cede a pressão e repete estilo de negociação lenta agora com Gilmar e Moraes

Lula cedeu a pressões dos outros Poderes, mas preferiu fazer as indicações solicitadas no seu próprio tempo, sem pressa e deixando claro quem daria a palavra final

 O presidente Lula (PT) repete com os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes a estratégia usada nas negociações com o centrão por mais espaço no governo.

Pessoas próximas a Lula afirmam que a demora nas negociações é uma estratégia pensada. Lembram que ele já foi chefe do Executivo por oito anos e que está acostumado a sofrer pressão para a indicação de postos estratégicos que estão sob sua responsabilidade.

No entanto relatam que o mandatário não estava acostumado a cobranças mais explícitas como as que sofreu neste ano e que isso acabou por surtir o efeito contrário.

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Os pedidos mais incisivos irritam o petista, que acaba cedendo por saber da importância das composições que faz, mas prefere não imprimir um ritmo mais acelerado para deixar claro que é ele quem determina o momento de concluir as negociações, e não o oposto.

O primeiro caso com essa demora foi na saída de Daniela Carneiro da União Brasil e do Ministério do Turismo. Ela deixou o partido em abril e, logo em seguida, a legenda passou a cobrar do Palácio do Planalto a troca de comando na pasta que havia sido entregue à legenda através de Daniela.

O mandatário, porém, só concretizou a mudança em julho. No processo de ingresso do PP e Republicanos no governo, o cenário foi similar.

Agora, com Gilmar e Moraes a tática se repetiu. Ambos apoiavam Paulo Gonet para a PGR (Procuradoria-Geral da República) desde o primeiro semestre.

Gonet foi sócio de Gilmar em uma instituição de ensino superior de Brasília e tem uma relação de amizade com o ministro há muitos anos. Moraes, por sua vez, aproximou-se do indicado à Procuradoria quando ele foi vice-procurador-geral Eleitoral e aderiu à campanha.

Os dois magistrados se consolidaram como os principais interlocutores de Lula no Supremo, e o petista sempre deixou claro a pessoas próximas que era importante agradar os dois. Diante deste cenário, Gonet sempre foi visto como favorito para assumir o comando da PGR.

Havia uma expectativa inicial de que Gonet poderia ser indicado ao posto logo após o término do mandato de Augusto Aras à frente da instituição. No entanto, não foi o que ocorreu. Aras deixou a chefia da Procuradoria em 26 de setembro, e Lula só oficializou seu substituto no dia 27 de novembro.

Nesse meio tempo, reuniu-se com outros quatro candidatos à sucessão da PGR, entre eles o preferido de boa parte do PT, Antônio Carlos Bigonha, e um indicado do ex-presidente José Sarney, Luiz Augusto dos Santos Lima. No entanto, ao final, prevaleceu o nome apadrinhado pelos integrantes do STF.

Da mesma forma, o presidente também optou por agradar Gilmar e Moraes, após quase dois meses de negociação, na vaga do Supremo.

Ambos tinham suas preferências para a cadeira deixada vaga por Rosa Weber. Quando a disputa afunilou entre os então ministro da Justiça, Flávio Dino, e o advogado-geral da União, Jorge Messias, os dois magistrados passaram a endossar o nome do primeiro.

Tanto Gonet quanto Dino ainda precisam ser aprovados pelo Senado para tomarem posse nos cargos.

Assim como na relação com Gilmar e Moraes, no caso do centrão o presidente também tem estendido as negociações e centralizado as principais decisões.

A articulação para a entrada de PP e Republicanos no governo, por exemplo, durou mais de 60 dias. Diversos desenhos para o ingresso dos dois partidos no Executivo foram cogitados nos bastidores.

No fim das contas, o PP indicou o deputado André Fufuca (PP-MA) para o Ministério do Esporte, e o Republicanos, o deputado Sílvio Costa Filho (Republicanos-PE) para o Ministério de Portos e Aeroportos.

À frente da articulação política do governo, o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, sofreu forte pressão do Congresso para que conseguisse agilizar a nomeação dos dois parlamentares na Esplanada.

No início de agosto, afirmou em entrevista que Lula havia confirmado a entrada das duas siglas em seu governo. O presidente, porém, não gostou da atitude de seu auxiliar, uma vez que preferia manter as negociações no seu próprio ritmo e só anunciar oficialmente os novos aliados do governo quando fosse finalizar as mudanças no governo.

Com isso, a fala de Padilha acabou por atrasar ainda mais o desfecho da negociação, e Fufuca e Costa Filho só tomaram posse em 13 de setembro.

Da mesma forma, Lula estendeu a negociação com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para a mudança na Caixa Econômica Federal.

No início do governo, o petista indicou duas mulheres para o comando dos dois principais bancos públicos do país, a Caixa e o Banco do Brasil.

Lula participou das posses e exaltou o fato de que estava ampliando a representação feminina nos espaços de poder. Por isso, resistiu em entregar ao chefe da Câmara a estatal que tem protagonismo nos programas mais importantes do governo, como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida.

Mas, apesar da resistência e da demora em oficializar a troca, a substituição acabou se confirmando no fim de outubro, mais de dois meses após o início da negociação com Lira sobre o tema.

O presidente da Câmara emplacou seu aliado, Carlos Fernandes, para a chefia da Caixa e ainda ganhou o direito de escolher os vice-presidentes do órgão.