Lacen e Fiocruz detectam variantes mais agressivas do coronavírus; cepas aumentam a reinfecção em Rondônia

Laboratório redobrou o trabalho para investigar a Covid-19; variantes são detectadas desde dezembro do ano passado

A rotina de trabalho dos biomédicos, farmacêuticos, biólogos e demais profissionais do Laboratório Central de Saúde Pública de Rondônia (Lacen) passou a ser prolongada desde os primeiros casos de Covid-19, registrados a partir de março de 2020. As atividades entram pela madrugada com as atenções voltadas para análises que possam detectar a presença do vírus nas amostras analisadas de todo Estado.

Na visão científica, esse trabalho é um dos maiores desafios para a rede de saúde mundial. As novas cepas, chamadas de “linhagens” do vírus, são detectadas através de duas técnicas: uma desenvolvida recentemente pelo pesquisador Felipe Naveca do Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) através da técnica de PCR em tempo real qualitativa; e a outra através do sequenciamento de nova geração (NGS), que permite identificar as variantes e mutações nas amostras analisadas.

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A chefe do laboratório de Virologia Molecular da Fundação Oswaldo Cruz Rondônia (Fiocruz-RO), Deusilene Vieira, enfatiza que são selecionadas as amostras e, posteriormente encaminhadas para análise por sequenciamento de nova geração. “Trata-se da avaliação do genoma completo”, explicou Deusilene.

Tanto a Fiocruz quanto o Lacen têm identificado variantes no Estado desde dezembro de 2020. Prova disso foi que a 1ª remessa de resultados do sequenciamento de amostras pela Rede Oficial do Ministério da Saúde, recebida na segunda-feira (29), que mostrou a presença das seguintes cepas circulantes: 27.5% da B.1.1.33 (já está em todo o território nacional desde 2020); 18% da B.1.1.28 (nova cepa com mutações que indicam maior transmissibilidade com circulação a partir do 2º semestre de 2020), 45.4% da P1 (nova cepa descrita e originária do Amazonas, com características de maior transmissibilidade, maior agressividade e mutações relacionadas a possíveis casos de reinfecções); e 9.1% da P2 (cepa descrita no Estado do Rio de Janeiro com características de grande transmissibilidade e também relacionadas a possíveis casos de reinfecção).

O acompanhamento aos pacientes auxiliará na resposta do Sistema Único de Saúde (SUS) para o controle da pandemia e para o desenvolvimento de vacinas efetivas no País, a exemplo da Rede de Influenza, que produz sistematicamente vacinas de forma anual direcionadas aos vírus circulantes, conforme lembra a diretora do Lacen, Cicileia Correia da Silva.

ESFORÇO GOVERNAMENTAL

“O Governo de Rondônia, por meio da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) e o Lacen, utiliza todos os seus esforços, de forma a não comprometer a continuidade de suas atividades e associando suas ações em paralelo e em concordância com o Ministério da Saúde e com a Rede Nacional de Vigilância da Influenza e outros Vírus Respiratórios, visando sempre a saúde da população”, disse Cicileia.

Desde o ano passado, o Lacen precisou formar uma equipe capacitada para o diagnóstico molecular do coronavírus, e em número relativamente adequado ampliou as atividades antes desenvolvidas apenas em dias úteis, no intervalo de 7h às 19h, para períodos noturnos até às zero hora, e finais de semana de 7h à meia noite. Eventualmente, devido à alta demanda de amostras, monta-se um turno extra de trabalho entre zero hora às 7h.

“Foram analisadas amostras oriundas dos municípios de Alvorada do Oeste, Ariquemes, Cacaulândia, Nova União, Porto Velho e Rolim de Moura”, informou a pesquisadora Deusilene Vieira.

Entre os projetos relacionados ao entendimento da Covid-19 no Estado, a Fiocruz está realizando acompanhamento semanal de um grupo de pacientes para avaliar a persistência do vírus através da análise da carga viral. Foi constatada, até o momento, a detecção do vírus por mais de duas semanas, em alguns casos pontuais até quatro semanas. De acordo com informação de Deusilene, a próxima etapa do projeto é avaliar a evolução para casos moderados e graves em relação a carga viral, variantes e perfil imunológico. “Nós sabemos que as variantes têm esse perfil, mas precisamos comprovar tudo com estudos comparativos”, assinalou.

Outra característica apontada pela doutora Deusilene é a presença de mutações correlacionadas com a possibilidade de reinfecção. “Praticamente, em 60% das amostras analisadas”, disse.

Uma das primeiras mutações relacionadas à reinfecção é a E484k está relacionada a escape imunológico presente da proteína Spike, alvo dos anticorpos produzidos pelo sistema imunológico depois da contaminação pela Covid-19.

Para a pesquisadora, além dos cuidados com o uso de máscaras, álcool em gel e higienização das mãos e objetos, a redução da circulação de pessoas é uma das principais formas de reduzir o contágio. “Quanto menos pessoas estiverem circulando, menor a chance de surgir novas variantes, ou de sua perpetuação; assim podemos relacionar a permanência das existentes com o surgimento de outras”, avalia.

SEQUENCIAMENTO GENÉTICO

Desde o ano 2000 já existe a Vigilância Genômica de vírus respiratórios no Brasil, feita pelos Centros Nacionais de Influenza (da sigla em inglês, NIC), presentes no Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz/RJ), Instituto Adolfo Lutz (IAL/SP) e Instituto Evandro Chagas (IEC/PA).