É preciso regulamentar o streaming no Brasil, diz vice-presidente da Netflix

Elisabetta Zenatti, vice-presidente de conteúdo da Netflix no Brasil, falou sobre o assunto

Seguindo seu mote de querer ver mais brasileiros nas telas, a Netflix começa o ano prestes a lançar uma lista diversificada de produções feitas no país e, ao mesmo tempo, cercada em Brasília por discussões que tentam regular as plataformas de streaming.

São vários os títulos divulgados nesta semana, num momento em que investir na produção local está prestes a ser não apenas uma decisão estratégica de mercado, mas uma exigência inscrita em lei, a julgar pelo avanço da regulamentação no Senado, que viu sua comissão aprovar um projeto de lei no fim de novembro.

Vice-presidente de conteúdo da Netflix no Brasil desde 2021, Elisabetta Zenatti, no entanto, frisa que a empresa já está preparada para quando a implementação vier, e parte disso por causa da lista de séries, filmes, documentários, reality shows e programas de competição desenvolvidos pelo braço local da empresa com sede na Califórnia.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

“Precisamos complementar a nossa oferta de títulos que vêm de fora, então nossa missão não é competir ou fazer o mesmo. É entrar no gosto dos brasileiros, tentar entender o que os brasileiros querem e gostam”, diz Zenatti, enquadrada pelo papel de parede colorido de uma das salas de reunião do escritório da Netflix em Barueri, na Grande São Paulo.

“Nós acompanhamos muito de perto todos os passos, fazemos parte do debate e achamos que realmente é o momento em que precisamos regulamentar essa relação”, diz a executiva, salientando que, no ano passado, antes de a discussão esquentar, houve o aporte de R$ 1,5 bilhão para conteúdo brasileiro original na Netflix.

Com o dinheiro, a ideia é pôr nas telinhas personagens reais e ficcionais, fatos históricos e contextos intrinsecamente tupiniquins. Entram no orçamento, por exemplo, uma minissérie sobre a chacina da Candelária e outra sobre o jogo do bicho, que Zenatti, nascida em Milão, descreve como uma trama de máfia à brasileira.

Também estão previstas novas temporadas de “Bom Dia, Verônica” –sustentada por um conservadorismo muito próprio e que descamba para o crime–, “De Volta aos 15” –com Maisa Silva na tão celebrada idade de debutante–, “Sintonia” –que oferece um olhar aprofundado para os jovens de uma favela– e “DNA do Crime” –sobre a complicada vigilância nas nossas fronteiras.

Reality shows também entram nos planos, com novos episódios de “Casamento às Cegas” e “Ilhados com a Sogra”, além de um programa de calouros inédito voltado ao universo do hip-hop.

Mas a menina dos olhos do escritório brasileiro é “Senna”, minissérie sobre o piloto de Fórmula 1 estrelada por Gabriel Leone que segue uma das principais tendências atuais do streaming, que vem fazendo documentários para biografar nomes centrais da cultura brasileira. Recentemente, o Star+ investiu numa ficção sobre Silvio Santos, enquanto a HBO Max viu bombar sua reconstituição do assassinato de Daniella Perez.

Com estreia prevista para este ano, a atração sobre Ayrton Senna teve trechos exibidos com destaque num apanhado de produções que o serviço mostrou nesta semana, em Los Angeles, para jornalistas de todo o mundo.

“Existe uma diretriz contrária a isso”, diz Zenatti, no entanto, ao ser questionada se a matriz americana orienta seus escritórios locais para que desenvolvam produções com a pretensão de alçar voos internacionais.

“Os escritórios da Netflix têm que cuidar da audiência local, não se preocupar se o título viaja ou não. Até porque o público universal reconhece o sabor local. ‘Round 6’ é exemplo disso”, continua, mencionando a série sul-coreana que, ao basear sua trama em jogos infantis e problemas sociais da Coreia do Sul, virou um fenômeno mundial, chegando até ao ultra-americanizado Emmy Awards.

Enquanto isso, “Luz” e “Pedaço de Mim” foram a maneira que a empresa encontrou de se aproximar do gosto do brasileiro por novelas sem abrir mão dos hábitos de consumo que ela própria popularizou, como as maratonas de episódios.

Após flertar com o formato por “muitos anos”, o serviço decidiu criar o que chama de séries de melodrama -tramas do tamanho de séries convencionais, mas carregadas no sentimentalismo rocambolesco e nos personagens mundanos, indo na contramão das concorrentes Globoplay e HBO Max.

Ou nem tanto. Ambas estão produzindo novelas diretamente para o streaming, ainda que com diferenças vitais em relação às obras tradicionais. “Todas as Flores”, do Globoplay, e as ainda inéditas “Beleza Fatal” e “Dona Beja”, da HBO, não são obras abertas, que se moldam ao gosto do público, e têm menos da metade dos capítulos de um folhetim tradicional, o que renega, inevitavelmente, a natureza do formato.

“Nós sabemos que os brasileiros gostam de se ver na tela, mas quem são esses brasileiros? Fazemos esse exercício constantemente: estamos servindo a todos os públicos? Há títulos e gêneros que são bem servidos por Estados Unidos, Coreia, Espanha, então quais são aqueles que fazem a diferença no Brasil?”, questiona Zenatti

Eleita em 2020 pela revista americana Variety uma das 50 mulheres mais influentes do mundo do entretenimento internacional, a executiva italiana estuda o público brasileiro há 26 anos, quando se mudou para o Brasil.

Antes da Netflix, ela passou pelo braço televisivo da Columbia e pela Band e fundou duas produtoras, a RGB Entertainment, que trabalhava com a Disney, e a Floresta Produções, parceira da Sony.

Seu olhar foi uma aposta, em 2021, para atravessar o que ainda promete ser uma discussão turbulenta sobre o papel e as obrigações de empresas de conteúdo sob demanda no Brasil. Ministra da Cultura, Margareth Menezes já disse que é preciso haver o que chama de uma remuneração justa em troca dos lucros obtidos por essas empresas no território nacional.

Algumas das propostas atreladas à regulamentação incluem uma cota para produções locais nos acervos e a cobrança da Condecine, a Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional.

Na França, considerado um dos países mais protecionistas em relação às suas telas, o imposto é de 25%. Na Itália, é de 15%, enquanto em Portugal e Espanha gira em torno de 5%. Na Coreia do Sul, que vem recebendo aportes ainda mais ostensivos da Netflix –o último na casa dos R$ 12,3 bilhões–, discussões semelhantes começam a avançar.

Hoje, avalia-se que Netflix e Amazon Prime Video tenham cerca de 5% de seu catálogo no Brasil preenchido por produções nacionais, segundo relatório da Ancine. As propostas em Brasília, porém, querem elevar o número para 20% e, dentro dele, quantificar uma cota para obras independentes.

“A estratégia da Netflix no Brasil não muda, porque temos um objetivo muito grande, de crescer, e nós temos uma quantidade local muito relevante, que já beira o que o mercado consegue produzir com qualidade”, diz Zenatti.

Sobre os percentuais estudados, a executiva diz que os “cálculos têm critérios e recortes diferentes” e que “fazer uma porcentagem em cima de um catálogo é algo muito relativo, porque precisamos evoluir de forma sustentável”.

Há temores de que, sem uma regulamentação, plataformas estrangeiras sigam o que o Paramount+ anunciou que faria nesta semana em seu catálogo americano -remover e cancelar lançamentos já anunciados de títulos estrangeiros, enquanto dá ênfase a produções americanas e reduz as internacionais.

Aliás, sobre a concorrência, que explodiu nos últimos anos com os principais estúdios e empresas de tecnologia da Califórnia entrando no tabuleiro criado pela própria Netflix, Zenatti diz que vê como algo saudável.

“Eu não sou guru para prever [se o mercado ainda pode crescer], mas é um momento delicado”, afirma. “Há muitos conglomerados de mídia neste momento, com outros negócios ao mesmo tempo, então eles têm que integrar tudo. A Netflix, por outro lado, tem um foco muito claro.”

Isto ficou claro quando o serviço anunciou que o último quadrimestre, após o fim do compartilhamento de senhas e da adoção de inscrições com anúncios, foi recordista em ganho de assinantes, perdendo apenas para o primeiro quadrimestre de 2020, quando começou a pandemia de Covid. Enquanto isso, outras empresas têm apertado os cintos e revisto as estratégias adotadas às pressas para jogar o jogo do streaming, como Paramount, Warner Bros. Discovery e Disney.

“Mas eu torço para que haja concorrência, porque ela é muito importante para o audiovisual. Tomara que todos tenhamos fôlego para continuar”, diz Zenatti.