Moradores relatam humilhações por atraso de taxa em prédio que caiu

Segundo famílias, cobrança variava entre R$ 200 e R$ 400 e datas para pagamento eram inflexíveis

Ex-moradores do edifício que desabou no Largo do Paissandu, no Centro de São Paulo, na terça-feira (1º), contaram que os valores do “aluguel” de imóveis no local eram flexíveis, mas não havia tolerância para inadimplência. Em média, as famílias pagavam entre R$ 200 e R$ 400. Eventuais atrasos no pagamento não podiam passar de três dias.

O edifício Wilton Paes de Almeida foi o primeiro ocupado pelo Movimento Luta por Moradia Digna (MLMD), há oito anos. O coletivo foi criado há dez anos na cidade de São Paulo. O prédio pertence à União e foi inaugurado em 1968.

Em reportagem no Largo do Paissandu, onde encontram-se parte dos desabrigados, o UOL apurou que humilhações eram comuns no caso do pagamento não ser feito na data.

“Eu era da ocupação no Cine Marrocos quando vim para esse prédio. Pagava R$ 200 de aluguel, lá, e tinha placa na porta anunciando o despejo se a gente não pagasse, era horrível”, revelou a manicure desempregada Keliane Costa, de 34 anos. A ocupação, também do MLMD, durou de 2013 a 2016 no antigo cinema na região central.

A ex-moradora do prédio e vendedora de bala em cruzamentos próximos à ocupação, Jaqueline Santos, de 27 anos, disse que pagava R$ 200 por mês ao movimento em um quarto que dividia com mais oito pessoas da família.

“Eram muito ignorantes com a gente, ameaçavam jogar ou jogavam as coisas na rua se a taxa não fosse paga. (…) Davam um prazo de quatro a oito dias para a pessoa sair, se não pagasse. Então jogavam tudo na rua.”

O ajudante-geral Gabriel Archângelo, de 24 anos, diz que não sofreu abusos na cobrança do quarto alugado por R$ 350 mensais, onde vivia com mais 11 pessoas da família. Segundo ele, a data era combinada previamente e tinha de ser cumprida.

Líder do MLMD nega acusações e afirma que taxa é “contribuição”

Moradores apontaram “Nil” e “Amílton” como responsáveis pela cobrança. Segundo os depoimentos, eles não apareceram após o incidente para prestar suporte aos desabrigados.

Um terceiro líder citado pelos moradores, Ricardo Luciano, conhecido como “Careca”, disse ao UOL que não era cobrado aluguel. Segundo ele, havia apenas uma “contribuição voluntária de R$ 50 (…) para manutenção e limpeza do espaço”. “Até eu pagava essa taxa”, concluiu.