Moro sinaliza disputar Planalto em agenda esvaziada em Brasília

Apesar do ingresso de Moro no Podemos, alas do partido resistem ao ex-juiz

Com uma agenda que acabou esvaziada, o ex-juiz Sergio Moro passou um dia em Brasília nesta semana e teve apenas reuniões isoladas com congressistas.

Em ao menos dois encontros com deputados federais, Moro não afirmou a qual cargo pretende se candidatar, mas deu indícios de que pretende entrar na disputa pelo Palácio do Planalto.

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O intuito da viagem era fazer algumas apresentações e conversas prévias à sua filiação ao Podemos, marcada para a próxima quarta-feira (10).

Ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro desde abril do ano passado, quando pediu demissão, Moro tem buscado nomes para elaborar seu projeto de governo e entrou em contato inclusive com estrategistas políticos próximos do ex-presidente Michel Temer (MDB).

Moro ficou de quarta (3) a quinta-feira (4) em Brasília e tinha pré-agendado reuniões com a bancada do Podemos, um grupo de congressistas do PSL e com o general Santos Cruz, também ex-ministro de Bolsonaro.

O encontro com Santos Cruz, dizem aliados do ex-magistrado, tinha a ideia de dar a sinalização de respaldo de alas importantes das Forças Armadas agora críticas ao presidente. Santos Cruz tem conversado com Moro por telefone.

As reuniões, porém, não ocorreram. No lugar, o ex-responsável pela Operação Lava Jato reuniu-se com parlamentares de outras siglas que já eram simpatizantes a ele e com congressistas do Podemos.

A visita coincidiu com o depoimento prestado por Bolsonaro à Polícia Federal, no qual o presidente afirmou que Moro condicionou uma troca no comando da corporação à sua indicação para uma vaga de ministro do STF (Supremo Tribunal Federal).

O ex-juiz divulgou nota rebatendo a declaração do mandatário e afirmando que não “troca princípios por cargos”.

Nesta quinta, por exemplo, Moro esteve com o deputado Leo Moraes (Podemos-RO). Segundo o congressista, ele fez perguntas sobre Rondônia, como qual a vocação do estado e o nível de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto).

“Moro disse que tem curiosidade de ir lá para passar mais tempo. Contou que ficou um dia no estado, mas como ministro, e que agora quer ir novamente com o partido. Ele sente que esse é um interesse que foi aflorado nele, de conhecer mais o Brasil”, disse Leo Moraes.

Em reunião com outro parlamentar, Moro também fez perguntas sobre questões locais, além de ter telefonado para congressistas de outras siglas de diversos estados, o que, na avaliação de aliados, demonstra o desejo de disputar a Presidência da República.

Inicialmente, a cúpula do Podemos tinha marcado uma reunião do ex-juiz com a bancada do partido na Câmara, que tem dez parlamentares. O encontro não ocorreu por causa de divisões no partido e do fato de que parte dos deputados estava em votação e nesta quinta retornaram cedo às bases eleitorais.

Segundo Leo Moraes, a reunião tanto com os representantes da sigla na Câmara como no Senado ficou marcada para próxima semana, antes da filiação de Moro.

“É uma aproximação necessária para saber qual o projeto de Brasil que ele tem, quais são os interesses, a forma de pensar e agir”, disse o deputado.

“Ele sempre teve um trabalho pró-ativo no mundo jurídico e certamente ele vai ser questionado sobre como pode promover mudanças, discutir o Brasil e seus problemas sociais”, afirmou Leo Moraes.

Apesar do ingresso de Moro no Podemos, alas do partido resistem ao ex-juiz.

Ao menos três dos dez deputados federais, por exemplo, são considerados mais alinhados a Bolsonaro e há também quem tenha mais proximidade com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

As divergências de opinião a respeito do ex-magistrado causam receio em pessoas próximas a ele, que temem que a rejeição do ex-ministro de Bolsonaro entre políticos acabe por isolá-lo e impedi-lo de formar alianças.

Na quarta, uma reunião que estava agendada com um grupo de parlamentares do PSL foi desmarcada a pedido da cúpula do partido, que formará a União Brasil, resultado da fusão com o DEM.

Dirigentes da legenda querem evitar fazer gestos políticos antecipados ao ex-ministro que possam indicar eventual apoio à candidatura dele. A mesma cautela é vista em outras siglas de centro e centro-direita.

De um lado, o ex-juiz ganhou antipatia de parte de eleitores do presidente. Isso porque ele pediu demissão do cargo de ministro da Justiça de Bolsonaro em abril do ano passado fazendo uma série de acusações ao mandatário, como de que ele tentou interferir na autonomia da PF.

Neste ano, sofreu uma dura derrota no STF (Supremo Tribunal Federal), que o considerou parcial em ações em que atuou contra Lula.

A revisão das sentenças que havia proferido deu munição à esquerda e à boa parte da classe política que o criticava sob a alegação de que ele agiu com parcialidade ao julgar ações da Operação Lava Jato em Curitiba.

A expectativa entre políticos e também aliados de Moro é que o ato de filiação marcado para a próxima quarta dê uma ideia dos apoios ou potenciais alianças do ex-ministro.