Desembargador de Rondônia faz desabafo sobre machismo e pede desculpas públicas à própria filha por silenciar diante de situação vexatória

O fato ocorreu no dia 29 de abril

São 4h da manhã do dia 29 de abril de 2018. Estou a essa hora refletindo sobre o comportamento de nós homens, como gênero, em relação as mulheres. A reflexão não é atoa e não surgiu do nada.

Na sexta feira, fui chamado por minha filha para ir a seu encontro em uma livraria em Porto Velho, ao chegar lá, ela estava indignada e transtornada e me relatou que adentrou no recinto uma jovem, de aproximadamente 15 anos, acompanhada de seu pai, momento em que um dos senhores que estava acompanhado por amigos em uma mesa próxima a sua, olhou para a garota e a chamou de “gostosa”.

Naquele momento, minha filha se rebelou e chamou a atenção do pai da jovem e este, ao que se sabe, conversou com os senhores e “aceitou” um pedido de desculpas.

A jovem, constrangida, não teve reação.

Após a jovem e o pai se retirarem, minha filha nervosa passou a ser criticada por ter reagido a tamanha insensatez.

Ao chegar o local e ouvir o que ela me disse, confesso que fiquei sem reação no momento. Para mim, a situação estava aparentemente calma e ela não corria riscos ou ameaça, e me calei, não fui conversar com os senhores, não para repreendê-los, mas para lhe dizer o porquê da indignação de minha filha, que, como mulher e defensora dos direitos humanos, sempre combateu e combaterá atitudes machista e preconceituosas.

Meu silêncio a incomodou, talvez mais do que ter ouvido um homem se referir a uma menina daquela forma, e é esse silêncio que pretendo calar neste momento, pois, após muita reflexão (nós homens precisamos de muito tempo para entender o óbvio), ter entendido o porquê da revolta.

As mulheres sempre foram vítimas na sociedade machista em que vivemos, a todo instante uma mulher é agredida de alguma forma ou se sente ameaçada mundo afora. No Brasil, foi preciso uma mulher ir parar na cadeira de rodas para que surgisse uma lei para protegê-las.

Nós homens precisamos entender e aprender de uma vez por todas que devemos respeitar a mulher em todos os sentidos. Aprender que mulher não é um objeto sexual e vê-las como se fosse; mulher é mãe de todos e a grande responsável, nas famílias, para criar o cidadão.

Nunca vi, confesso, um homem ser chamado de “gostoso” nas ruas, salvo os famosos por suas fãs em momento de apresentações públicas, o que até acho normal, mas homem olhando para o corpo das mulheres a todo momento com ar de cobiça, homem fazendo comentários indelicados em relação as mulheres, homem se vangloriando por ter “pego” uma mulher, ah! Isso já vi muito.

Pior de tudo isso, foi o que um dos senhores veio me falar, no calor de uma discussão que se instalou, que o pai da jovem, concordou que, de fato, sua filha era “gostosa”, aqui abro um parêntese para esclarecer que não ouvi isso do pai, foi um dos senhores que ao tentar justificar uma atitude machista, disse que haviam se desculpado com o pai da jovem e ele ter concordado.

Mulher não é alimento que apreciamos e achamos gostoso ou não. Mulher é uma pessoa e que ainda luta por espaços na sociedade.

Lembro-me de um caso recente, onde uma jornalista foi assediada por um ator, em razão das pessoas envolvidas, o caso mereceu destaque na mídia, mas não nos esqueçamos que as mulheres são vítimas de assédio a todo instante, inclusive quando são chamadas de “gostosas” por nós homens. Pois bem, naquele caso, vi várias outras mulheres, igualmente famosas, se unirem à vítima, passaram a dotar o seu nome, passando uma mensagem de que “mexeu com uma, mexeu com todas” e que nos dias de hoje elas sempre reagirão.

Daí a indignação de minha filha e de, embora tenha ela sido a vítima, a bola da vez, também se sentir ofendida e merecer os mesmos pedidos de desculpas.

Indagaria a qualquer homem que possua um relacionamento que, ao chegar em casa, conte para sua companheira que chamou uma jovem de gostosa na rua. Certamente a resposta será não. Partindo desta resposta, esse comportamento, além de ofensivo a todas as mulheres, não é ético, porque ético é aquilo que você faz e pode contar para todos, indistintamente, e não só para “os amigos”.

Não poderia então me manter no silêncio, e permitir que intolerância como essa ressoem e ganhem forças na sociedade. Queremos sim um país mais honesto, justo e solidário, como preceitua nossa Constituição, mas para isso precisamos entender, principalmente nós homens, que temos que respeitar, em todos os sentidos, as mulheres.

Peço publicamente, desculpas a minha filha pelo meu silêncio, por não ter entendido, naquele momento, sua dor, seu sofrimento interno e sua vergonha.